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Quanto ganha um jogador de futebol no Brasil

Levantamento do Caged mostra disparidade de 327% entre piso e teto salarial no futebol brasileiro, enquanto brasileiros no exterior somam milhões.

por Rafael Mendes 27 de setembro de 2026 4 min de leitura
Vista aérea do centro de treinamento (CT) da Associação Atlética Anapolina, com campos de futebol vazios (Imagem ilustrativa: centro de treinamento de futebol (CT da Anapolina), sem relação direta com o texto.)

Imagem ilustrativa: centro de treinamento de futebol (CT da Anapolina), sem relação direta com o texto. (Foto: Fg641618 CC BY-SA 4.0 via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:CT_da_Anapolina.jpg)

A distância entre o salário de um jogador de futebol que atua nas categorias de base do interior e o de um brasileiro contratado por um clube milionário no exterior não se mede em porcentagem, mas em múltiplos: o próprio levantamento do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) aponta disparidade de 327% entre o piso e o teto salarial médio da categoria “jogador de futebol” no país, o que explica por que a pergunta sobre quanto ganha um jogador de futebol no Brasil admite respostas tão diferentes conforme o nível em que o atleta atua. Segundo o portal Salario.com.br, que consolida dados do Ministério do Trabalho a partir de 22.108 profissionais admitidos ou desligados no país nos últimos doze meses, o salário médio de quem exerce a função com carteira assinada é de cerca de R$ 4.184 por mês, com piso médio de R$ 1.849,72 e teto médio de R$ 7.902,66, diferença que separa a realidade da maioria dos jogadores registrados no país da de um pequeno grupo de contratos bem acima da média. O valor mediano do levantamento, que reflete melhor a remuneração da maior parte dos atletas com contrato formal, é de apenas R$ 1.800 mensais.

Essa disparidade entre a base e o topo da tabela salarial está entre as maiores registradas pelo Caged entre as profissões mapeadas pelo portal, o que reforça a imagem de uma pirâmide afunilada, na qual poucos contratos milionários convivem com uma ampla base de jogadores próxima do piso da categoria. Essa estrutura tem base na Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), que caracteriza a atividade do atleta profissional como remuneração pactuada em contrato formal de trabalho com a entidade esportiva à qual ele está vinculado. A partir da Lei nº 12.395/2011, que incluiu o artigo 87-A na Lei Pelé, o direito de imagem passou a ser tratado como renda de natureza civil, autônoma e desvinculada do salário do contrato de trabalho, o que abriu espaço para que uma parcela relevante da remuneração de jogadores de ponta seja paga por esse canal. O limite legal para essa parcela, que era de 40% pela própria Lei Pelé, foi elevado para 50% pela Lei Geral do Esporte, a mudança mais recente na engenharia jurídica que define quanto e como um jogador de futebol recebe no país.

Os brasileiros mais bem pagos no exterior

No topo dessa pirâmide estão os brasileiros que atuam fora do país, liderados por Neymar, que no Al Hilal recebe remuneração estimada em cerca de R$ 45 milhões por mês, o equivalente a aproximadamente 10.700 vezes o salário médio pago a um jogador de futebol registrado no Brasil pelo Caged. Logo atrás aparece Oscar, no Shanghai Port, com cerca de R$ 11 milhões mensais, seguido por Casemiro, no Manchester United, com R$ 9,5 milhões, e por Vinícius Júnior, no Real Madrid, com R$ 9,3 milhões. Completam a lista dos brasileiros mais bem pagos do futebol mundial Roberto Firmino, no Al-Ahli, com R$ 8,5 milhões, Malcom, no Al Hilal, com R$ 8 milhões, e Gabriel Jesus, no Arsenal, com R$ 7,2 milhões por mês, segundo levantamento que mostra quanto ganha um jogador de futebol brasileiro no exterior atualmente. Esses valores acompanham a dimensão da indústria em que esses contratos são negociados: o futebol mundial movimenta cerca de US$ 286 bilhões por ano, segundo o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Para comparação, veja também quanto paga a premiação da Libertadores 2026 ao campeão.

Quando a crise reduz os contratos

Nem sempre a curva desses salários é ascendente: em 2020, na crise financeira provocada pela pandemia, clubes brasileiros cortaram salários individualmente, sem um acordo coletivo nacional entre a Comissão Nacional de Clubes e a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), que rejeitou a proposta de corte linear de 25% apresentada pela CNC e forçou negociações clube a clube, como mostra reportagem sobre os cortes salariais nos clubes brasileiros durante a pandemia. Atlético-MG, Bahia, Cruzeiro e Palmeiras aplicaram individualmente o mesmo corte proposto pela CNC, o Santos reduziu em 30% os salários pagos em abril e o São Paulo impôs o corte mais severo entre os clubes, enquanto Red Bull Bragantino e Botafogo inicialmente recusaram qualquer redução, alegando caixa suficiente para atravessar o período. Grêmio e Internacional projetavam perdas de R$ 25 milhões e R$ 100 milhões, respectivamente, dimensionando o impacto financeiro da crise sobre os clubes.

No Fortaleza, o corte veio de forma escalonada, com uma redução de 25% aplicada de forma diferida em março e outra de 10% aceita voluntariamente pelo elenco em abril, decisão que o atacante Osvaldo explicou nos seguintes termos: “A gente realmente aceitou porque a gente sabe que hoje, 10% do nosso salário, para ajudar outras pessoas, acaba sendo nada. Então, a gente acabou abrindo mão disso para que os funcionários que ganham menos que a gente pudesse ter o seu sustento, cuidar dos seus familiares.”

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Sobre o autor

Rafael Mendes

Jornalista que cobre mercado, gestão e o circuito de tênis e MMA. Escreve guias e reportagens de contexto.

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