Quando um atleta consegue fixar a pegada pelas costas do adversário, cruzando o controle pelo tempo mínimo exigido, o placar salta para quatro pontos, o valor mais alto das regras do jiu jitsu competitivo, o mesmo atribuído à montada completa. Essa cena resume por que entender a tabela de pontuação é o primeiro passo para acompanhar um combate sem se perder entre raspagens, passagens e finalizações, e explica por que uma simples queda vale exatamente a metade do que tomar as costas do adversário. A vitória, nesse esporte, chega por pontos ao fim do tempo regulamentar ou por finalização a qualquer momento do combate, o que transforma cada posição dominante em um capítulo decisivo dentro da disputa.
Abaixo da montada e das costas, a tabela segue uma lógica decrescente que privilegia o avanço de posição sobre a simples troca de golpes, de um jeito que lembra, guardadas as diferenças, como as regras do judô também hierarquizam movimentos em pontos e vantagens: a passagem de guarda, em que um lutador atravessa as pernas do oponente e assume o controle superior, vale três pontos, enquanto quedas, raspagens e o joelho na barriga valem dois pontos cada.
A regra determina que uma posição só é pontuada se for estabilizada por três segundos, e que, numa sequência contínua de movimentos, apenas a posição final precisa cumprir essa contagem. No caso das costas, a pontuação cheia de quatro pontos também depende de um detalhe técnico: os ganchos das pernas precisam estar descruzados, porque o triângulo de corpo ou os pés cruzados em torno do adversário rendem apenas vantagem, não os pontos completos.
Quando a luta termina antes do tempo
Nenhuma vantagem no placar, porém, sobrevive a uma finalização: a rendição, seja verbal, física, por desmaio ou pelo pedido de tempo em razão da dor, encerra o combate imediatamente, independentemente de quantos pontos estejam acumulados até aquele instante. Quando o tempo se esgota sem finalização e o placar fica empatado, o desempate recorre primeiro às vantagens acumuladas, e, se também houver igualdade nelas, o critério final passa a ser o menor número de punições recebidas durante a luta. Essas punições variam de um a quatro pontos de acordo com a gravidade da infração cometida, o que faz de uma falta disciplinar algo tão decisivo quanto qualquer raspagem bem executada no tatame.
O contraste com as regras do grappling
Um bom jeito de enxergar como as regras do jiu jitsu se diferenciam no grappling aparece no regulamento da United World Wrestling, que adota uma lógica distinta para o jogo de pernas: chaves de joelho, de pé e raspagens voltadas a essa região são permitidas sem qualquer punição, e apenas o heel hook permanece proibido. Ali, o atleta que opta por puxar a guarda tem apenas trinta segundos para finalizar ou raspar o adversário, sob pena de sofrer dois pontos de penalidade por fuga da posição em pé. Foi sob esse formato que o Mundial de Grappling de 2018 reuniu 23 países em Astana, no Cazaquistão, entre 6 e 9 de setembro, com os irmãos Paulo e João Miyao, referências do jiu-jitsu brasileiro, competindo respectivamente até 62kg e 66kg.
A raiz dessas regras remonta à adaptação que Carlos Gracie fez, em 1914, do jiu-jitsu japonês ensinado pelo mestre Mitsuyo Maeda, trabalho que ele e o irmão Hélio aprofundaram até moldar o que hoje se reconhece como Jiu-Jitsu Brasileiro. A federação internacional de referência, a IBJJF, foi fundada em 2002 por Carlos Gracie Jr., da academia Gracie Barra, e adota o mesmo regulamento de pontuação da CBJJ que rege o campeonato nacional. O sistema de faixas coloridas funciona como medida de experiência e conhecimento técnico, progredindo conforme o tempo de treino e a habilidade demonstrada, o que também organiza as categorias de disputa por peso e por nível técnico. O Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu, prova organizada pela CBJJ, é disputado nesse mesmo formato de pontuação desde 1996.
A expectativa em torno de cada edição internacional ajuda a explicar por que esse conjunto de regras segue sendo debatido entre federações de jiu-jitsu e de grappling. Marcos Santa Cruz resumiu o momento vivido pelo grupo da seguinte forma: “Estamos trabalhando há alguns anos para chegar nesse patamar, então temos grandes expectativas”.



