No dia em que a Haas abriu a coletiva para anunciar seu novo piloto, o nome vinha acompanhado de um feito que ultrapassa a própria equipe: a confirmação de Rafael Câmara para a temporada de 2027 da Fórmula 1 devolve ao Brasil a condição de ter dois pilotos ao mesmo tempo na categoria, algo que não acontecia há dez anos. A equipe fechou com o brasileiro um contrato de vários anos, encerrando um processo de seleção que também passou por outros nomes do grid de categorias de acesso e que terminou por reforçar a crença da Haas no potencial do piloto brasileiro. Câmara vai ocupar a vaga aberta pela saída do francês Esteban Ocon e terá como companheiro de equipe o britânico Oliver Bearman, que segue na Haas para o próximo ciclo.
O anúncio foi feito em 15 de outubro de 2026 e apresentou Câmara, de 21 anos e natural de Recife, Pernambuco, como o 34º brasileiro a disputar a Fórmula 1, um número que por si só mostra como a presença de pilotos do país na elite do automobilismo é mais rara do que se costuma supor. Ele chega ao grid ao lado de Gabriel Bortoleto, confirmado pela Audi em setembro, o que fecha a dobradinha brasileira que falta à categoria há uma década inteira e devolve ao país um protagonismo que remete a 2016, última vez em que o Brasil ocupou mais de um assento em uma temporada da Fórmula 1. A confirmação na Haas chega depois de uma temporada em que Câmara já vinha sendo tratado como o próximo nome natural para uma vaga na elite do automobilismo, dado o conjunto de resultados que acumulou nas categorias de acesso nos últimos anos.
A última vez que o Brasil teve dois pilotos simultâneos na Fórmula 1 foi em 2016, quando Felipe Massa corria pela Williams e Felipe Nasr pela Sauber, uma combinação que marcou a última geração de brasileiros a dividir o grid antes do hiato que agora chega ao fim. Desde então, o país se acostumou a ter representação isolada na categoria, o que torna a chegada conjunta de Câmara e Bortoleto um marco para o automobilismo brasileiro nas categorias de base. Câmara também é membro da Academia de Pilotos da Ferrari desde 2022.
O currículo que sustenta a aposta da Haas é extenso para um piloto de 21 anos. Câmara foi campeão da Fórmula 3 em 2025 pela equipe Trident, com um recorde de cinco pole positions em uma única temporada, e também levou o título da Fórmula Regional em 2024, consolidando uma trajetória de conquistas sucessivas nas categorias que antecedem a Fórmula 1. Na temporada atual da Fórmula 2, pela Invicta Racing, ele lidera o campeonato com 207 pontos, sete pontos acima do búlgaro Nikola Tsolov, uma vantagem construída ao longo de uma temporada inteira de consistência e que, caso se confirme em título até o fim do ano, pode tornar o brasileiro o primeiro piloto desde Oscar Piastri a conquistar três campeonatos de categorias de base consecutivos antes de chegar à Fórmula 1, um feito que reforça o tipo de aposta que a Haas decidiu fazer ao assiná-lo.
Antes de assinar, Câmara passou por um teste de carro anterior promovido pela própria Haas e superou outros candidatos avaliados pela equipe, entre eles Leonardo Fornaroli e Jack Doohan, o que deu à escuderia a segurança necessária para fechar o contrato plurianual. Jerome D’Ambrosio, diretor-adjunto da Academia Ferrari, descreveu o que viu no brasileiro ao longo desse processo: “He has a unique way of knowing what he wants and what he needs to perform, which I think is extremely important for a driver.”
Para fechar o anúncio, coube ao chefe de equipe da Haas, Ayao Komatsu, a frase que resumiu a decisão de contratar Câmara depois de observar sua passagem pelas categorias de acesso e pelo teste que definiu sua vaga: “You cannot teach them speed.”



