Quando uma luta do UFC chega ao fim dos rounds sem nocaute ou finalização, três pessoas sentadas ao lado do octógono decidem tudo. O sistema oficial se chama “10 pontos must”: o lutador que vence o round recebe 10 pontos, o adversário fica com 9 ou menos, e só existe empate de round (10-10) quando ninguém consegue estabelecer vantagem clara. É essa conta simples, repetida em três cartões independentes, que explica boa parte das polêmicas depois de uma decisão apertada.
Os critérios não são um mistério, embora pareçam quando o resultado sai diferente do que a torcida viu em casa. Striking efetivo e grappling efetivo dividem o topo da lista: golpe que machuca vale mais que golpe que só soma volume, e queda seguida de controle real pesa mais do que simplesmente derrubar o adversário e não fazer nada depois no chão. Quando esses dois quesitos empatam, agressividade e controle de octógono entram como critérios de desempate.
O que separa um round 10-9 de um 10-8
A maioria dos rounds fecha 10-9, a margem mínima de vitória. O 10-8 aparece quando um lutador domina o assalto de forma ampla, considerando dano, domínio e duração daquele domínio dentro dos cinco minutos. Não precisa haver um quase nocaute para justificar essa nota, embora rounds assim sejam o exemplo mais claro. Já o 10-7 é raro e reservado para casos de domínio esmagador, quase uma interrupção que o árbitro decidiu não dar.
Quem são os juízes e por que eles discordam
Os três julgadores são credenciados pela comissão atlética do estado ou país que sedia o evento, avaliam cada round de forma isolada, sem carregar impressão de um assalto para o outro, e não trocam informação entre si durante a luta. Essa independência é o motivo pelo qual cartões diferentes surgem para a mesma luta: cada um interpreta dano, controle e efetividade com uma régua ligeiramente própria, mesmo seguindo os mesmos critérios oficiais.
Decisão unânime, dividida ou majoritária: qual a diferença
Na decisão unânime, os três juízes fecham para o mesmo lutador, ainda que com placares diferentes entre si. Foi o caso de Charles do Bronx, que venceu por decisão unânime e ficou com o cinturão dos leves sem deixar dúvida entre os julgadores. Na decisão dividida, dois cartões vão para um lado e um terceiro discorda por completo, apontando o outro lutador como vencedor. Na majoritária, dois juízes concordam com um nome e o terceiro simplesmente enxerga a luta empatada.
Um exemplo clássico de decisão dividida que ainda rende discussão é a revanche entre Valentina Shevchenko e Taila Santos, no UFC 275, em junho de 2022. Dois juízes fecharam a luta em 48 a 47 e 49 a 46 para a campeã queniana, enquanto o terceiro deu a vitória à brasileira por 48 a 47. Cinco rounds inteiros, e o resultado dependeu de um único cartão dissidente.
Por que a pontuação ainda gera tanta briga
Mesmo lutadores experientes reclamam da forma como certos critérios são aplicados, especialmente o controle contra a grade. Alex Pereira, o Poatan, questionou publicamente esse ponto após perder o cinturão dos meio-pesados para Magomed Ankalaev, em março de 2025. “Se a pessoa coloca outra na grade, tem que estar machucando e mostrar ação. Mas ele (Ankalaev) não fez nada”, disse o brasileiro, que também defendeu mudanças nos critérios de pontuação usados pelo MMA para evitar que posição sem produção decida uma luta inteira.
Esse tipo de atrito tende a voltar à tona sempre que um card grande termina sem nocaute. O UFC Belgrade, em 1º de agosto, e o UFC Fight Night entre Gamrot e Salkilld, marcado para o dia 8, tiveram lutas resolvidas nos cartões dos juízes, e é provável que o mesmo aconteça em algum momento do UFC 330, com Makhachev e Machado Garry, no dia 15. Saber ler o placar antes de a decisão ser lida ajuda a entender por que a luta terminou daquele jeito, e não de outro.
No fim das contas, o sistema de 10 pontos tenta transformar uma disputa cheia de nuances em números comparáveis. Funciona na maior parte das vezes. Nos rounds equilibrados, porém, ele expõe justamente o que a pontuação tenta esconder: julgamento humano tentando medir algo que nem sempre cabe numa tabela.



