O Corinthians se chama Corinthians porque seus fundadores, um grupo de operários do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, decidiram homenagear o Corinthian Football Club, um time inglês amador que excursionou pelo Brasil em 1910 e impressionou a cidade com um futebol técnico e leal. O clube brasileiro nasceu em 1º de setembro daquele ano, bem no meio da passagem do time inglês por São Paulo.
A fundação aconteceu às 20h30, à luz de um lampião, na esquina das ruas José Paulino e Cônego Martins. Ali se reuniram Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone, ao lado de outros oito rapazes da região. O grupo escolheu como primeiro presidente o alfaiate Miguel Battaglia, que resumiu o espírito do projeto logo naquela noite: “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”.
Poucos dias antes, o Corinthian Football Club havia goleado clubes cariocas e paulistas em uma sequência avassaladora. No Rio de Janeiro, bateu o Fluminense por 10 a 1 em 22 de agosto, uma seleção carioca por 8 a 1 em 24 de agosto e uma combinação brasileira por 5 a 2 dois dias depois. Já em São Paulo, no Velódromo Paulistano, a equipe inglesa impressionou profundamente os operários locais durante a excursão, vencendo a Atlética das Palmeiras por 6 a 0 em 31 de agosto, o Club Athletico Paulistano por 8 a 1 em 2 de setembro e o São Paulo Athletic Club por 9 a 2 em 4 de setembro.
Foi justamente a partida contra a Atlética das Palmeiras que chegou aos ouvidos da turma do Bom Retiro. Relatos dão conta de que o português Antônio Pereira narrou os lances do jogo na barbearia de Salvador Bataglia para os amigos, entre eles Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone, e a conversa evoluiu rápido para a ideia de fundar um clube próprio. Na reunião em que o nome foi decidido, Ambrósio foi o primeiro a falar e propôs a homenagem ao time inglês, então considerado uma das equipes mais fortes do mundo. Segundo relatos dos primeiros sócios do clube, Battaglia levantou-se, emocionado, e declarou: “Está adotado o nome de Sport Club Corinthians Paulista para o nosso grêmio”. O que mais chamava atenção no time britânico, segundo a imprensa da época, era o nível técnico elevado somado a um futebol limpo, sem jogadas violentas ou desleais, algo raro nos gramados paulistas daquele início de século.
Há um detalhe da história que raramente vira manchete: o Corinthians não demorou para provar em campo o que prometia. Já em 1914, quatro anos após a fundação, o time conquistou seu primeiro título, o Campeonato Paulista, com uma campanha perfeita de 10 vitórias em 10 jogos disputados e 37 gols marcados, garantindo a taça com uma rodada de antecedência ao vencer o Campos Elyseos por 4 a 0. O artilheiro daquela campanha foi o atacante Neco, com 12 gols.
De lá para o Neo Química Arena, na zona leste da capital paulista, o caminho foi longo. O estádio que hoje recebe a torcida em jogos como o recente empate diante do Athletico-PR por 0 a 0 fica a quilômetros de distância do terreno alugado e aplainado no Bom Retiro, onde o primeiro treino do time reuniu uma plateia entusiasmada em 14 de setembro de 1910.
Curioso é que um clube fundado por trabalhadores, num momento em que o futebol brasileiro ainda era dominado pela elite, tenha escolhido um nome emprestado justamente de um time amador inglês de tradição aristocrática. A ironia nunca incomodou ninguém. Passado mais de um século, o nome importado virou sinônimo de torcida operária, e poucos torcedores param para pensar que a palavra Corinthians remete a Corinto, cidade grega que deu nome ao clube londrino original.



